segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Essência

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Aprendeu das piores maneiras a como ocultar
Os sentimentos que o faziam estagnar.
Sobrou apenas frio e dor, o leve
Estopim do rancor.

Acreditou e se rebelou, pegou suas decepções e
Se transformou. Soube usar a queda para levantar.
Conversão perfeita segundo os sábios.
Ouvia e não falava.

Encontrou prazer em lugar hostil,
Largou seus bens e uma roupa vestiu.
Nu no fim do mundo.

Guardava rostos e esquecia perfumes,
Guardava perfumes e esquecia rostos.
Optou pela essência.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Em pedaços

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Demora muito até percebermos que aquilo que julgávamos ser uma qualidade, na verdade é um defeito. Pensando bem... Será isso uma verdade? Talvez seja apenas uma questão de percepção, de saber discernir os fatos. O problema pode ser o excesso, pois as pessoas são fáceis de saturar. O lado bom é que podemos mudar só que a evolução é de total responsabilidade de cada um. E, aos poucos, a prática se mostra bem oposta à teoria. No topo das relações difíceis, as relações que envolvem sentimentos são as mais delicadas. Às vezes, precisamos nos desdobrar para entender o próximo, ou simplesmente sabermos ouvir. Você quer planejar algo para certa situação, mas a intensidade da vida não te deixa racionar de forma logica. O amor não é diferente de tudo isso, ao contrário, é uma contradição da realidade. Como células cancerígenas, ele vive às mil maravilhas, contudo, quando ferido, talvez esteja na fase terminal. É preciso saber cuidar, aceitar e viver cada dia como se o amor fosse eterno. Ele é afinal. O problema é a intensidade e disponibilidade para amar que podem ser alteradas. Só que o amor não depende de uma única pessoa, quando amamos ele é plural. É uma troca reciproca.
                                                                                                           
Em pedaços

Já fui singular, mas o plural me atraiu.
Então, virei plural, mas não me satisfiz:
Agora sou menos que um,
Sou quatro em corpos diferentes.

Encontro-me no palco em que vejo as nossas imagens na corda bamba,
Os participantes atordoados com uma possível decisão.
Atuo de forma singela, neutro às aversões que possam existir.
Sinto por todos.

Não é uma das melhores situações, mas tudo bem.
É um risco.
São amores.

Hoje, já não sei quantos sou.
Menos que quatro, suponho,
Somos apenas nós dois.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Resultante

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Olhando para o horizonte, as pessoas comentavam que aquela era a noite mais obscura do ano, contudo, ninguém conhecia a profundidade da vida de Jon, que um dia, fora um homem bom. Hoje, não mais. Quando dizem que o homem é influenciável, a verdade prevalece em toda sílaba pronunciada.  Até os "bons" se esvaem, oras. "É o capitalismo!", afirmam, não sabendo o quão intensa é a essência humana. Essa oscilação de conceitos não acabará, apenas espalhará mais raízes para futuras lavagens cerebrais nos homens.

Jon já foi um filho e marido exemplar, porém, depois que encontrou o vício nas drogas, nada mais importou. No mundo das drogas é assim: não há como se esconder após entrar, com raras exceções. Em plena sexta-feira e a cidade estava com um tom cinza diferente de dias comuns, como se um manto estivesse enevoando as mentes. No fim dum beco iluminado por uma fogueira com sombras distorcidas ao redor, Jon se levantou cambaleando e sem saber até mesmo o seu nome. Nesse dia, havia acabado de receber, então, para comemorar, foi forçado a ir de encontro às drogas. No dia anterior, brigou com sua esposa e acabou dormindo na casa da amante. A filha de Jon estava tão cheia de vida até descobrir que tinha um câncer raro e menos de três meses de vida. Além das brigas com a esposa, a doença de Susi foi o estopim para Jon perder a vontade de viver.

Apesar de tudo, Jon amava a sua família. Tinha vergonha por agir sobre impulsos e piorar a atual situação, mas não sabia que os obstáculos são feitos para serem superados. Assim que meio andou, meio cambaleou três metros para longe das sombras, um homem pálido e sem blusa se levantou com algo brilhante na mão esquerda e avançou até o seu alvo. O golpe foi seco, preciso, bem no coração de Jon. Ele, que estava voltando para casa, nunca mais voltou para casa. Deixou de existir sem poder falar o quão importante aquelas pessoas eram na sua -frustrada- vida.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Brecha Temporal

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Burgueses no poder, liderados por alienação,
Controlando suas marionetes e esquecendo o coração.
Arsenais verbais, movidos por enganação,
Empurrando a desolação.

Avante, empiristas!
Leigos da nação,
Marginais massacrados e
Miseráveis por opressão.

Sedentos de nutrientes, a Sociedade cai em tentação:
Matando, roubando e reunindo legiões.
Agonização.

Comam o resto deles.
Brecha social,
Brecha temporal.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Rascunho: II

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Naquela noite em sua cama, resolveu escrever. Escrevia sobre devaneios, sobre pessoas e sonhos afogados por ilusões vividas e tão pouco esquecidas. A morte era o seu tema favorito. Doce, mas cruel, pensou com um sorriso nos lábios. Quando a caneta estava entre os seus dedos, era transferido para outra dimensão; um mundo somente seu e cheio de perigos. Perguntava-se de qual lugar aquelas palavras bonitas brotavam no papel do antigo caderno de composições musicais que um dia tentara escrever enquanto era envolvido pela vida boemia. Não são as melhores criações, mas são as únicas que fiz. A vida que escolhera era cortada por caminhos obscuros e densos que, até mesmo um demônio, perder-se-ia com facilidade. O aroma agridoce do quarto escuro o envolveu e pôs-se a escrever, lenta e firmemente.

Adormeceu logo em seguida. Estava exausto do dia e das pessoas ao seu redor. Que pessoas, otário? Não havia ninguém ali. Que a verdade seja dita: era um solitário de carteirinha. Só tinha vadias naquela jornada repleta de crateras. Foi largado pela única mulher que amou mais que a velha matriarca que o criara. Quanta saudade sentia? Nem sabia dizer. Foram longos verões ao lado do afago feminino que o levava ao delírio. Nos seus sonhos, ela sempre estava presente. Lena, costumava chama-la durante a intimidade do casal. Pensando bem, Helena era um ótimo nome para ela. Viveram durante anos e nunca passou pela sua cabeça que estava sendo traído pela mulher que compartilhava a sua cama. É inevitável, os relacionamentos sempre acabam, tentava amenizar a martirizarão com o término da relação. Servi para algo, afinal. Sofrer é o meu castigo. Helena separou-se dele no dia do seu aniversário. Estava cansada da velha ladainha e tinha conhecido outra pessoa, afirmou. Que presente! Ela não quis nada dele, apenas o deixou arruinado e com uma casa habitada pelos fantasmas sussurrantes de sua presença.

Ouviu falar que o seu novo marido havia morrido, mas não a procurou. Acreditava que quando as pessoas precisam de algo, elas sempre encontram alguém para mendigar. O sonho daquela noite não foi diferente dos demais: estavam no antigo campus de sua faculdade, com Helena no colo e excitado pelo beijo que acabara de ganhar. Porém, sentiu algo estranho no ambiente; um silêncio que nunca existira e um horizonte tão negro como uma mortalha recém-lavada. Entre as poucas árvores do campus, uma jovem se esgueirou e partiu na direção deles. A jovem era quase linda, se não houvesse sangue por suas calças jeans e arranhões pelos braços e o rosto. Portava uma arma, notou de súbito. Ambos ficaram estáticos, porém a jovem continuou vacilante e com lágrimas de sangue nos olhos. Era um triângulo amoroso de sexta-feira 13 e ele não ficara sabendo? Então a moça estava com a arma apontada a poucos metros deu seu coração, quando, de longe, ouviu os riffs de smoke on the water em seus ouvidos.

Acordou assustado. Era madrugada e estavam ligando de forma restrita para ele. Que diabos, praguejou. Pegou o telefone e disse: - Alô?
- Pai, precisamos conversar. Uma voz rouca disse.
Pai? Isso era engano. Não tinha filhos. Deveria ser engano, mas no momento, sentiu algo diferente naquela frase.