Cena I - Fuga
A amargura era o seu prato preferido.
No clarão da chuva torrencial da madrugada, o vulto ectoplásmico fundiu-se a ventania desenfreada e como num breve insight, saiu voando sem rumo. Cansado da perseguição, O Menino Que Chorava Por Um Olho Só acabou caindo no seu próprio abismo de solidão e dor. Enquanto virava-se contra o negro horizonte que descarregava a sua fúria incessante naquele infeliz coração enjaulado, O Menino cuspia uma mistura de sangue e barro juntamente com o gosto intenso e amargo de toda a bile que poderia existir no mundo. Aquela luta estava encerrada e, mais do que ninguém, eles sabiam disso. O Menino chorou o seu egoísmo pelo único olho que tinha.
II - Paralisia
Pintava quadros e ria deles.
Olhando para a aurora sobre o ombro nu, a sua visão periférica vislumbrou fantasmas mortos há muito tempo. E lá longe, todos eles começaram a cantar uma melodia clássica em uníssono. A Menina Que Não Tomava Parte conhecia e amava cada som que era produzido, mas como numa amnésia instantânea ou como consequência duma sequência de viagens temporais, não recordava-se de nada. Quando deu-se conta do transe, daquela sensação de encarceramento físico e mental em que encontrava-se, juntou tudo que tinha dentro de si para fugir daquele lugar e nunca mais voltar, mas foi tudo em vão. Os quadros riram dela.
III - Divisão
Seus movimentos eram graciosamente calculados.
Nem sempre, mas boa parte deles, poderíamos assim dizer. Compartilhar aquele corpo, o corpo dele, era uma guerra-sem-fim. O Menino Dividido E Seu Irmão Gêmeo Absorvido eram famosos naquela região. Um dia um dizia que era "isso", noutro dia o outro diria que era "aquilo" e, como era natural acontecer, viviam nessa eterna contradição. Por fora, as pessoas diziam que era a Sociedade.
domingo, 19 de janeiro de 2014
Um breve relato (sem aspas) de alguém ainda não identificado
Lá estava eu, deitado na praia, enquanto as ondas quebravam no vento e jogavam respingos no meu corpo. Quando elas batiam no meu rosto e se juntavam com as minhas lágrimas, davam uma sensação que aquecia o coração. No horizonte, tão distante, tão amplo, belas figuras eram formadas com as nuvens-de-algodão-doce-nublado. Ainda lembro do elefante sem orelha e do corpo humano sem cabeça. Quando quis me levantar, lembrei o motivo de ter sentindo uma paz enquanto estava isolado ali, só com os pássaros planando lá longe e as nuvens brincando de formar coisas sem sentido. Senti uma breve vertigem e foi exatamente nesse momento em que a ferida recomeçou a doer. O meu paradigma final.
Essa ferida, essa que gangrenou o núcleo da minha alma, me consome como se tivesse sido amarrada à minha alma num tempo que já não sei se existiu. De tão atemporal que é, ainda luto em busca de respostas, mas sem muito sucesso. E no final, sempre me entrego aos mesmo caprichos, aos mesmos vícios duma rotina martirizante. Já não me importo tanto com despedidas e o que me assusta, é não me assustar com isso. Chegou um momento em que de tanto reprimir, mesmo que inconscientemente, as palavras ficaram gravadas nas cordas vocais. Elas nunca foram pronunciadas e, pelo andar do barco, nunca serão.
Finalizo aqui, num barzinho no centro da cidade, tomando algo que não sei o nome pra curar, mesmo que por um breve momento, essa ferida que me atormenta. Nem mais o meu nome eu sei. Amo essas brechas temporais, me esconder lá enquanto o circo pega fogo e a ferida parece não existir.
Me sabotei.
domingo, 18 de agosto de 2013
Relato duma ferida pulsante
Espiei
por trás da parede por um tempo que não soube contabilizar, mas duma coisa eu
não tive dúvidas: ela ainda estava lá, indo embora. Forcei a visão até que uma
vertigem me atacou e por um momento, ela já não estava mais lá. Quando me
recuperei, descobri que ela estava dentro de mim, na minha pele, pulsando como
se eu fosse o caos. E eu gritei! Gritei como se o mundo dependesse do meu
esforço, só que de nada adiantou. Lembro que depois de muito tempo, ela
continuava em mim, só que dessa vez eu a suportava. A dor, contudo, virou uma
ferida de tanto doer. Em todos os lugares que eu estava, ela também estava lá,
desde o trecho duma música qualquer até uma nuvem no céu nublado. Os bons
momentos quando já não podem mais ser compartilhados com alguém, eles viram
apenas instrumentos de tortura mental chamado lembranças. As lembranças, por
sua vez, te trazem um atordoamento cheio de perguntas e vontades que não podem
mais tornarem-se realidade. Talvez eu seja um caos mesmo. Não poderei mais
acordar antes dela e fica lá, olhando ela dormir profundamente, como um anjo.
Não terei mais as DRs mais engraçadas da minha vida, que sempre acabavam com um
“te sento a mão na cara, menino”. Ah... Algumas coisas por estarem
subentendidas, não precisam ser ditas ou escritas. Ao menos, era pra ser assim.
E lá, num lugar remoto rodeado por outras feridas não menos pulsantes quanto a
minha, eu continuava. A ferida morreu.
- Encare como se eu não fosse voltar, sem otimismo.
- Eu sinto que agora você precisa de mim o tanto quanto eu preciso de ti.
- O que eu te pedi ?
- Eu sei...
segunda-feira, 8 de julho de 2013
A Torre Negra
Aquele menino, o menino que foi desafiado por um feiticeiro,
Fruto do ventre duma dama vendida e dum Pistoleiro morto,
Havia vingado.
E o Oeste nunca viu.
Corria por entre os arbustos da floresta mais densa que conheceu e
Entre uma respiração e outra, vozes o entrecortavam por dentro e por fora.
Estava num paradoxo e a lucidez estava se aposentando.
Ficou estático quando avistou a porta.
A encarou por um tempo indeterminado e soube que era ela quem o encarava,
Apoderando-se daquilo que pareciam ser emoções há muito tempo mortas.
A encarou por um tempo indeterminado e soube que era ela quem o encarava,
Apoderando-se daquilo que pareciam ser emoções há muito tempo mortas.
O Pistoleiro ajoelhou-se.
O horizonte, escuro como como véu enlutado, chorou sobre ele,
Lavando a procrastinação e o medo da Torre.
Das Torres.
Afinal, havia outros mundos além daquele.
Também chorou.
Roland atravessou a porta.
O horizonte, escuro como como véu enlutado, chorou sobre ele,
Lavando a procrastinação e o medo da Torre.
Das Torres.
Afinal, havia outros mundos além daquele.
Também chorou.
Roland atravessou a porta.
domingo, 7 de abril de 2013
Outros II
Nota: Antes da postagem propriamente começar, venho dizer que ela ocorre paralelamente com outra conhecida por "Outros I". Caso não a tenham lido e queiram formar a trama, deixo aqui o link dela: Outros I.
Tudo aconteceu sem
querer, como quando jogamos a colher no lixo ao invés do pote de iogurte.
Algumas conversas iam e viam, enquanto o apreço por ela só aumentava. A
princípio, sinceramente, em nada pensou. Um intervalo de tempo depois percebeu
que estava sendo envolvido por algo que ainda não sabia como terminaria ou
simplesmente continuaria. E assim, encontro após encontro, finalmente o
encontro aconteceu. As conversas não eram nada convencionais e isso o agradava,
pois já estava cansado da velha rotina pacata de formalidades sem precisão.
Aquela mulher o atraia mais que uma luz numa escuridão... Diferente das outras,
ela era simplesmente ela. Não sabia
explicar isso. Quando estavam juntos, sentia que irradiavam uma energia
totalmente diferente, parecendo iluminar qualquer coisa que pudesse ofuscar
suas trajetórias. Fixando os olhos nos dela, sentia uma paz de espírito imensa.
Era como se aqueles pequenos olhos tristes o mostrassem o valor da vida e a
incrível mulher que estava ao seu lado. Nos seus braços, nada mais importava:
fosse a diferença de idade ou o aluguel atrasado. Agora, via que aquilo nunca
mais voltaria. Estava à margem de seus atos e sabia que mais cedo ou mais
tarde, aquilo não passaria de lembranças que o frustrariam, de um jeito ou de
outro. Não veria mais os seus cabelos cor de fogo e aquele sorriso brincalhão
de quem sabe um baita segredo ao seu respeito, mas nunca o revela. Ela era a
América e ele, o seu Colombo.
[...]
No momento em que caiu, o saco de ossos emitiu um baque surdo e mortificado
contra o chão de madeira sujo. O tiro foi disparado e a bala foi de encontro à
sua cabeça, deixando apenas os vestígios mentais duma alma não tão menos
atormentada quanto à do autor do disparo. O bar não costumava lotar, mas nas
sextas, a atração principal era a pequena e doce Marie. Conquistava todos com
as suas ousadas coreografias orgásmicas fazendo muito homem casado dormir na
casa da mãe quando era indagado sobre como perdera o dinheiro ou sobre as
chicotadas nas costas.Quando ela dançava, todos paravam para apreciar aquela
vertigem. A música de cabaret deixava tudo mais sensual enquanto ela seguia
fazendo as suas acrobacias no poste. A confusão estava armada e Marie não
parava de dançar! Dois tacos de sinuca vieram na direção do autor do disparo e
com muita habilidade prum bebum, ele conseguiu desviar do primeiro e acertar um
soco no estômago do homem frustrado do outro lado, o derrubando sem fôlego. O
segundo taco foi quebrado em sua cabeça sem que ele pudesse fazer algo para
evitar. Sentiu o sangue quente escorrer por entre os olhos e mais uma vez sacou
a pistola automática e disparou três vezes seguidas na testa do homem. Todos no
bar o estavam olhando como se ele fosse o anticristo na Terra. O álcool no
sangue dele pareceu não anestesiar mais as emoções e no impulso, saiu correndo
em direção à porta. Cadeiras voaram em sua direção, mas não tão rápidas para
acertá-lo. Lá fora, entrou no seu Cadilac 89 e partiu em rumo ao nada.
Dizem
que quando as pessoas bebem às vezes elas fazem aquilo que não fariam lúcidas,
mas o que acabara de acontecer no bar, Oscar tinha certeza que nunca faria algo
parecido. Maldito álcool... Era
policial recém aposentado e isso explicava toda aquela performance no bar. E
como sempre, tudo começara por motivos banais: em casa, houve um
desentendimento com a mulher e então, para afogar as mágoas, decidiu beber até
cair e esquecer toda aquela crise de pré-separação. Sabia que essa necessidade
de deletar a parte ruim das coisas que um dia foram boas fazia parte do homem e
tampar um buraco com outro ainda maior, era a melhor forma de seguir vivendo.
Aplicava essa filosofia em praticamente toda a sua vida, principalmente como
policial. Durante uma operação numa favela em busca dum traficante que
praticamente comandava o tráfico naquela região, Oscar tomou uma atitude que
custou a vida do seu parceiro. A atitude, contudo, não sabia se tinha sido a
errada. Talvez não naquele momento,
mas lhe pareceu certa e entre acertos e erros, Fernando estava entre os seus
braços dando seus últimos suspiros de vida enquanto o sangue escorria pela
boca, nariz e ouvidos. A vida e as suas peças! Agora, pôde ouvir algumas
sirenes ao longe em sua perseguição. Devia ter matado dois e feito estragos
noutros, mas ainda estava totalmente com a mente enevoada para saber ao certo.
Cruzou um sinal que estava verde, mas o próximo estava vermelho. A adrenalina
tomou conta dele e sem pensar nas consequências, cruzou o vermelho. Não viu
quando uma mulher surgiu na frente do carro e por consequência de sua
imprudência, a acertou em cheio. Ao menos achava que era uma mulher. Não parou
o carro e seguiu em sua fuga para o além.
Quando
olhou no retrovisor, aqueles olhos o olharam como se não fossem mais os seus:
fundos e distantes das órbitas. Buscou forças para decifrar o que diziam quando
um lampejo os cruzou e o que viu no fundo daqueles castanhos escuros, foi
apenas desaprovação. As pálpebras pesaram e então apagou por um tempo que não
soube dizer se foram horas ou minutos, e uma lembrança o acometeu:
Quando
voltou a si, percebeu que as sirenes estavam mais distantes e se perguntou se
ainda estava sonhando, mas não, elas realmente estavam se afastando. Ou seria
ele? Quando percebeu, estava sozinho na estrada. Não era exatamente uma estrada...
Era uma ponte.
Longe
dali, numa das viaturas que perseguiam aquele louco e sem juízo, o policial
Matheus ligou o rádio e pediu para que o agente do outro lado da ponte a
subisse. Seria o fim da perseguição e o cara iria parar. Ele TERIA que parar... Ligou para a mulher e
disse que chegaria um pouco tarde em casa. “Sem problema, amor”, foi a resposta
da esposa e voltou para o amante.
Oscar
notou que a ponte estava sendo içada e sabia que não havia mais como parar
aquilo. Na verdade, nem sabia se queria fazê-lo. Tomou um gole do whisky e
largou a garrafa no banco do passageiro, pisou fundo no acelerador e se
entregou àquilo que na certa seria o fim de todos os problemas, o fim de sua
vida. O marcador de velocidade mostrava 120 km/h no momento em que o carro
planou pelo pequeno espaço entre as duas partes da ponte. O carro bateu com um
baque metálico do outro lado e parou, começando a jogar fumaça para fora. Oscar
viu a polícia, o esperando, à espreita do fugitivo de merda que ele era. Aquele
era o fim, ele sabia. E no rádio, tocava alguma música que não sabia de quem
era, nem o que significava, mas quando chegou no trecho “knive’s out”, Oscar
não sacou a sua faca, mas a sua arma e a colocou dentro da boca. Não houve
hesitação nem filme sobre sua vida diante dos olhos fechados e então o gatilho
foi puxado. Tudo foi sugado pelo buraco negro da morte e no negro Oscar
desapareceu.
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