domingo, 19 de janeiro de 2014

Um breve relato (sem aspas) de alguém ainda não identificado

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Lá estava eu, deitado na praia, enquanto as ondas quebravam no vento e jogavam respingos no meu corpo. Quando elas batiam no meu rosto e se juntavam com as minhas lágrimas, davam uma sensação que aquecia o coração. No horizonte, tão distante, tão amplo, belas figuras eram formadas com as nuvens-de-algodão-doce-nublado. Ainda lembro do elefante sem orelha e do corpo humano sem cabeça. Quando quis me levantar, lembrei o motivo de ter sentindo uma paz enquanto estava isolado ali, só com os pássaros planando lá longe e as nuvens brincando de formar coisas sem sentido. Senti uma breve vertigem e foi exatamente nesse momento em que a ferida recomeçou a doer. O meu paradigma final.

Essa ferida, essa que gangrenou o núcleo da minha alma, me consome como se tivesse sido amarrada à minha alma num tempo que já não sei se existiu. De tão atemporal que é, ainda luto em busca de respostas, mas sem muito sucesso. E no final, sempre me entrego aos mesmo caprichos, aos mesmos vícios duma rotina martirizante. Já não me importo tanto com despedidas e o que me assusta, é não me assustar com isso. Chegou um momento em que de tanto reprimir, mesmo que inconscientemente, as palavras ficaram gravadas nas cordas vocais. Elas nunca foram pronunciadas e, pelo andar do barco, nunca serão.

Finalizo aqui, num barzinho no centro da cidade, tomando algo que não sei o nome pra curar, mesmo que por um breve momento, essa ferida que me atormenta. Nem mais o meu nome eu sei. Amo essas brechas temporais, me esconder lá enquanto o circo pega fogo e a ferida parece não existir. 

Me sabotei.

domingo, 18 de agosto de 2013

Relato duma ferida pulsante

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Espiei por trás da parede por um tempo que não soube contabilizar, mas duma coisa eu não tive dúvidas: ela ainda estava lá, indo embora. Forcei a visão até que uma vertigem me atacou e por um momento, ela já não estava mais lá. Quando me recuperei, descobri que ela estava dentro de mim, na minha pele, pulsando como se eu fosse o caos. E eu gritei! Gritei como se o mundo dependesse do meu esforço, só que de nada adiantou. Lembro que depois de muito tempo, ela continuava em mim, só que dessa vez eu a suportava. A dor, contudo, virou uma ferida de tanto doer. Em todos os lugares que eu estava, ela também estava lá, desde o trecho duma música qualquer até uma nuvem no céu nublado. Os bons momentos quando já não podem mais ser compartilhados com alguém, eles viram apenas instrumentos de tortura mental chamado lembranças. As lembranças, por sua vez, te trazem um atordoamento cheio de perguntas e vontades que não podem mais tornarem-se realidade. Talvez eu seja um caos mesmo. Não poderei mais acordar antes dela e fica lá, olhando ela dormir profundamente, como um anjo. Não terei mais as DRs mais engraçadas da minha vida, que sempre acabavam com um “te sento a mão na cara, menino”. Ah... Algumas coisas por estarem subentendidas, não precisam ser ditas ou escritas. Ao menos, era pra ser assim. E lá, num lugar remoto rodeado por outras feridas não menos pulsantes quanto a minha, eu continuava. A ferida morreu.

- Encare como se eu não fosse voltar, sem otimismo.

- Eu sinto que agora você precisa de mim o tanto quanto eu preciso de ti.

- O que eu te pedi ?

- Eu sei...

segunda-feira, 8 de julho de 2013

A Torre Negra

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Aquele menino, o menino que foi desafiado por um feiticeiro,
Fruto do ventre duma dama vendida e dum Pistoleiro morto,
Havia vingado.
E o Oeste nunca viu.

Corria por entre os arbustos da floresta mais densa que conheceu e
Entre uma respiração e outra, vozes o entrecortavam por dentro e por fora.
Estava num paradoxo e a lucidez estava se aposentando.
Ficou estático quando avistou a porta.

A encarou por um tempo indeterminado e soube que era ela quem o encarava,
Apoderando-se daquilo que pareciam ser emoções há muito tempo mortas.
O Pistoleiro ajoelhou-se.

O horizonte, escuro como como véu enlutado, chorou sobre ele,
Lavando a procrastinação e o medo da Torre.
Das Torres.

Afinal, havia outros mundos além daquele.
Também chorou.
Roland atravessou a porta.

domingo, 7 de abril de 2013

Outros II

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Nota: Antes da postagem propriamente começar, venho dizer que ela ocorre paralelamente com outra conhecida por "Outros I". Caso não a tenham lido e queiram formar a trama, deixo aqui o link dela: Outros I.


[...] No momento em que caiu, o saco de ossos emitiu um baque surdo e mortificado contra o chão de madeira sujo. O tiro foi disparado e a bala foi de encontro à sua cabeça, deixando apenas os vestígios mentais duma alma não tão menos atormentada quanto à do autor do disparo. O bar não costumava lotar, mas nas sextas, a atração principal era a pequena e doce Marie. Conquistava todos com as suas ousadas coreografias orgásmicas  fazendo muito homem casado dormir na casa da mãe quando era indagado sobre como perdera o dinheiro ou sobre as chicotadas nas costas.Quando ela dançava, todos paravam para apreciar aquela vertigem. A música de cabaret deixava tudo mais sensual enquanto ela seguia fazendo as suas acrobacias no poste. A confusão estava armada e Marie não parava de dançar! Dois tacos de sinuca vieram na direção do autor do disparo e com muita habilidade prum bebum, ele conseguiu desviar do primeiro e acertar um soco no estômago do homem frustrado do outro lado, o derrubando sem fôlego. O segundo taco foi quebrado em sua cabeça sem que ele pudesse fazer algo para evitar. Sentiu o sangue quente escorrer por entre os olhos e mais uma vez sacou a pistola automática e disparou três vezes seguidas na testa do homem. Todos no bar o estavam olhando como se ele fosse o anticristo na Terra. O álcool no sangue dele pareceu não anestesiar mais as emoções e no impulso, saiu correndo em direção à porta. Cadeiras voaram em sua direção, mas não tão rápidas para acertá-lo. Lá fora, entrou no seu Cadilac 89 e partiu em rumo ao nada.

Dizem que quando as pessoas bebem às vezes elas fazem aquilo que não fariam lúcidas, mas o que acabara de acontecer no bar, Oscar tinha certeza que nunca faria algo parecido. Maldito álcool... Era policial recém aposentado e isso explicava toda aquela performance no bar. E como sempre, tudo começara por motivos banais: em casa, houve um desentendimento com a mulher e então, para afogar as mágoas, decidiu beber até cair e esquecer toda aquela crise de pré-separação. Sabia que essa necessidade de deletar a parte ruim das coisas que um dia foram boas fazia parte do homem e tampar um buraco com outro ainda maior, era a melhor forma de seguir vivendo. Aplicava essa filosofia em praticamente toda a sua vida, principalmente como policial. Durante uma operação numa favela em busca dum traficante que praticamente comandava o tráfico naquela região, Oscar tomou uma atitude que custou a vida do seu parceiro. A atitude, contudo, não sabia se tinha sido a errada. Talvez não naquele momento, mas lhe pareceu certa e entre acertos e erros, Fernando estava entre os seus braços dando seus últimos suspiros de vida enquanto o sangue escorria pela boca, nariz e ouvidos. A vida e as suas peças! Agora, pôde ouvir algumas sirenes ao longe em sua perseguição. Devia ter matado dois e feito estragos noutros, mas ainda estava totalmente com a mente enevoada para saber ao certo. Cruzou um sinal que estava verde, mas o próximo estava vermelho. A adrenalina tomou conta dele e sem pensar nas consequências, cruzou o vermelho. Não viu quando uma mulher surgiu na frente do carro e por consequência de sua imprudência, a acertou em cheio. Ao menos achava que era uma mulher. Não parou o carro e seguiu em sua fuga para o além.

Quando olhou no retrovisor, aqueles olhos o olharam como se não fossem mais os seus: fundos e distantes das órbitas. Buscou forças para decifrar o que diziam quando um lampejo os cruzou e o que viu no fundo daqueles castanhos escuros, foi apenas desaprovação. As pálpebras pesaram e então apagou por um tempo que não soube dizer se foram horas ou minutos, e uma lembrança o acometeu:

Tudo aconteceu sem querer, como quando jogamos a colher no lixo ao invés do pote de iogurte. Algumas conversas iam e viam, enquanto o apreço por ela só aumentava. A princípio, sinceramente, em nada pensou. Um intervalo de tempo depois percebeu que estava sendo envolvido por algo que ainda não sabia como terminaria ou simplesmente continuaria. E assim, encontro após encontro, finalmente o encontro aconteceu. As conversas não eram nada convencionais e isso o agradava, pois já estava cansado da velha rotina pacata de formalidades sem precisão. Aquela mulher o atraia mais que uma luz numa escuridão... Diferente das outras, ela era simplesmente ela. Não sabia explicar isso. Quando estavam juntos, sentia que irradiavam uma energia totalmente diferente, parecendo iluminar qualquer coisa que pudesse ofuscar suas trajetórias. Fixando os olhos nos dela, sentia uma paz de espírito imensa. Era como se aqueles pequenos olhos tristes o mostrassem o valor da vida e a incrível mulher que estava ao seu lado. Nos seus braços, nada mais importava: fosse a diferença de idade ou o aluguel atrasado. Agora, via que aquilo nunca mais voltaria. Estava à margem de seus atos e sabia que mais cedo ou mais tarde, aquilo não passaria de lembranças que o frustrariam, de um jeito ou de outro. Não veria mais os seus cabelos cor de fogo e aquele sorriso brincalhão de quem sabe um baita segredo ao seu respeito, mas nunca o revela. Ela era a América e ele, o seu Colombo.


Quando voltou a si, percebeu que as sirenes estavam mais distantes e se perguntou se ainda estava sonhando, mas não, elas realmente estavam se afastando. Ou seria ele? Quando percebeu, estava sozinho na estrada. Não era exatamente uma estrada... Era uma ponte.

Longe dali, numa das viaturas que perseguiam aquele louco e sem juízo, o policial Matheus ligou o rádio e pediu para que o agente do outro lado da ponte a subisse. Seria o fim da perseguição e o cara iria parar. Ele TERIA que parar... Ligou para a mulher e disse que chegaria um pouco tarde em casa. “Sem problema, amor”, foi a resposta da esposa e voltou para o amante.

Oscar notou que a ponte estava sendo içada e sabia que não havia mais como parar aquilo. Na verdade, nem sabia se queria fazê-lo. Tomou um gole do whisky e largou a garrafa no banco do passageiro, pisou fundo no acelerador e se entregou àquilo que na certa seria o fim de todos os problemas, o fim de sua vida. O marcador de velocidade mostrava 120 km/h no momento em que o carro planou pelo pequeno espaço entre as duas partes da ponte. O carro bateu com um baque metálico do outro lado e parou, começando a jogar fumaça para fora. Oscar viu a polícia, o esperando, à espreita do fugitivo de merda que ele era. Aquele era o fim, ele sabia. E no rádio, tocava alguma música que não sabia de quem era, nem o que significava, mas quando chegou no trecho “knive’s out”, Oscar não sacou a sua faca, mas a sua arma e a colocou dentro da boca. Não houve hesitação nem filme sobre sua vida diante dos olhos fechados e então o gatilho foi puxado. Tudo foi sugado pelo buraco negro da morte e no negro Oscar desapareceu.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Cilada

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Dentre as coisas que estavam no quarto, o pôster dos Beatles sorrindo e a playlist aleatória de AC/DC, pareciam casar com o momento. E no meio dessa bagunça, eles amavam-se. Não era somente sexo ou uma simples transa, tudo aquilo envolvia ares desconhecidos para ambos, uma certa magia que os tinha conectado e os unia de diferentes formas. Os movimentos não ensaiados iam e viam acompanhados de leves tremores de doses de prazer. Aquilo percorria todos os seus corpos e os atingia, deixando os protagonistas anestesiados do mundo lá fora. Sua fantasia de mulher-gato o levava diretamente prum lugar paralelo e cheio de mistérios prontos para ser revelados quando cada parte da roupa fosse deixada de lado, mas não da forma convencional... Devagar, foi beijando a sua boca, sussurrando em seu ouvido e a arrepiando quando roçava de leve o seu cavanhaque na nuca da mulher-gato. Do pescoço, os beijos foram descendo e descendo, chegando até a ilha do prazer. Lá, a despiu com a boca, sem usar as mãos. E os corações batiam “TUM, tum, TUM” num compasso leve, quase como uma nota afinada sendo testada. Os movimentos que inicialmente eram calmos e ritmados evoluíram. Já não podia saber quem era quem, pois havia um emaranhado de dois corpos e várias mãos que quem entrasse naquele momento, não teria reação. O momento demorou muito tempo, mas pareceu que voou e o desejo deles era ainda maior. Ele não aguentou.
Ela deitou-se ao seu lado, com a pele cor de neve levemente avermelhada, nua, com o suor de seu amado se unindo ao seu e exalando aquele desejo insaciável por ele. Por um tempo que nenhum soube dizer se foram horas, minutos ou segundos, ambos ficaram curtindo o nirvana que ali existia. Tinham muita coisa para falar, contudo, a comunicação visual que faziam era o que precisam saber um sobre o outro. Sabiam que aquilo que estava acontecendo era a maior cilada mágica que acontecera com os dois. Estavam perdidamente localizados um no outro. Sabiam que o tempo os controlava e jogava com eles, deixando tudo mais mágico ainda. Às vezes é necessário abster-se de certos prazeres para que quando se permitir, não falte mais nada. Não é dosar homeopaticamente, mas saber como deixar um pouco de si naquele corpo, deixar saudade e motivos pra voltar. O quadro dos Beatles continuava sorrindo e os dois sabiam que estavam sorrindo para eles. E a hora de ir embora havia passado. Aquele momento era o mais difícil e parecia duradouro. Sem querer, escolhemos enxergar apenas a pior parte de tudo. A despedida era o início de outro ciclo que os uniria novamente. Deixou alguma coisa em sua casa, levou outra para a sua. Teriam mais motivos para o reencontro, mais motivos para se perder em terras desconhecidas. Ficaram abraçados como se as suas vidas dependessem daquilo. Tudo era paz e nada mais existia. Um beijo na testa de sua amada e ele se foi. Já esperavam a volta ansiosamente.