segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Decodificando

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É tão irônico se abrir a esses novos vícios em busca de curar problemas internos antigos. Experimentar novas drogas pra entorpecer a dor de ser quem eu sou e tomar o controle da minha vida. Não àquelas drogas que eu comecei a pegar abuso e que tanto me fizeram entrar num círculo sem fim de tentativas de fuga da tristeza e da dor. Não ao que sempre te incomodou quando você foi a minha luz e me fez enxergar além daquela fumaça pesada e carregada de um cheiro que afastava a tua boca da minha. Agora talvez seja a hora de tratar quimicamente todos os meus neurônios que estão doentes, e é ruim demais pensar em me jogar nisso. É ruim, é cômico e parece punitivo! Talvez as conversas de uma hora com um profissional pudessem dar um jeito, mas eu já tentei, você sabe. Posso não ter tentado tanto, esse é o caso de abrir mão de outras coisas e focar em me curar. Eu era bom em te amar, tão empenhado nisso quanto a querer entupir meu organismo dessas coisas. Do meu jeito, não tão certo e nem aquilo que você esperava de um homem ideal, mas sempre carinhoso e gentil. E o teu amor era a minha garantia de viver sempre nessa onda gostosa de tirar o fôlego. Acabei de ligar e marquei a consulta. Meu coração está com medo.
Quando aqueles comprimidos caírem na minha boca, irei imaginar que você segura a minha mão. Eu vou chorar num mix de tristeza e alegria.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Uma nova esperança: o meu último adeus

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Antes de começar, é necessário informar que o final desse relato já nos é dito agora: eu morri. Caso não queira saber como foi o meu último dia e todas as minhas motivações, não continue. Todo conteúdo insensível é de total autoria do autor.

Sempre me preocupei demais. Demorou bastante tempo até conseguir encontrar o motivo disso tudo: ansiedade. Ansiedade essa que me agita e me desfoca de toda e qualquer atividade séria que exija os meus neurônios funcionando de uma maneira racional. Parece procrastinação, mas esse sentimento de não conseguir focar sempre foi um dos meus grandes problemas. E é nesse momento que quem tem um pacote fechado com a depressão, síndrome do pânico e ansiedade sofre. A dor mental chega a ser tão forte que ela transcende até me atingir fisicamente. Quando que tudo isso começou? Já desisti de buscar explicações. Tudo sempre esteve em seu lugar, tudo sempre está ali ou aqui, basta saber como irrigar, cultivar e esperar florescer. Nem sempre são coisas boas. A infância é um momento de fundamental importância e nem os adultos sabem disso. Me deparei com monstros em toda caminhada, e boa parte deles nasceram nos meus primeiros anos de vida. Não há culpados.
A busca por moldes socialmente aceitáveis é uma jornada do herói, em sua essência, fadada ao fracasso. Nesses casos, não há a possibilidade do sucesso e o final é premeditado. Me perguntei por muito tempo se eu era uma pessoa socialmente aceitável porque nunca me considerei que fosse, não importava o que eu fizesse. A tentativa de melhorar, de buscar ser o melhor mesmo com todas as adversidades que o mundo nos impõe, só me mostrou ainda mais que o ser humano não valoriza o espírito, mas sim a carne e os bens materiais. Meu pensamento sempre foi a minha maior arma e também a minha maior prisão. Pensar que não tenho um filme, comida ou cor preferida, sei lá, me assustava muito. Eu queria ser normal. É tão pequeno para alguém mentalmente saudável ou que não passa pelo mesmo, mas é uma zona de caos pra quem o sente. Me libertei disso pensando que: não devo me limitar a nada! Que gostosa a vida é quando a gente não se resume unicamente a uma só coisa, a um só sabor, a uma só visão. Já imaginou o quanto a gente deixa de ganhar por não experimentar diferentes sensações pela cegueira e fanatismo em uma só “coisa”? O pensamento é uma prisão. O nosso espírito é maior e mais importante do que tudo que podemos imaginar. Alimente e cuide dele enquanto se é possível. O aspecto físico, espiritual e mental devem ter um equilíbrio.
Isso tudo aqui era para ser uma carta de adeus, mas creio que fui mais prolífico do que saudosista. E é exatamente por esse motivo que me retiro pela última vez. Se quiser saber sobre mim, procure o meu patrimônio na internet ou fale com quem era próximo. Serão opiniões divergentes que convertem prum único caminho, isso eu sei. A luta de verdade acontece quando estou só comigo mesmo. Esses embates me dão mais sofrimento do que vitória, mas sempre usei isso como motivação para seguir. Se tu passa por algo assim, desejo força para transformar essa dor em energia. Um dia as coisas funcionam, nem que sejam a base de ódio. Um até logo.

A carta de adeus acabou e agora iremos começar o relato da minha morte. Sei que você estava curioso para isso, mas segura essa ansiedade porque será mais cru do que você imaginava. Cortamos os gastos e os custos, o que impossibilitou uma produção estilo Hollywood. No final, a morte é mais intrínseca do que parece.

Era uma hora que não era dia e nem era noite, talvez pudesse ser o momento em que os mortos retornam do seu mundo e assombram os vivos nos filmes de terror. Até então, a única forma de vida humana ali presente era de cinco colegas que haviam se reunido pra andar de skate, patins e bike: que geração fitness, nunca consegui acompanhar. O riso era fácil e o suor começava a brotar pelos poros dos jovens. A chegada D’eles foi tão repentina quanto ao evento final desse enredo: enquanto os cinco se divertiam, um grupo de ******** desceu de um carro e saíram em disparada em suas direções. Eram silenciosos, mas extremamente mortais.
- Quem são aqueles ali?
- Puta que pariu, são os ********! Caralho, a gente se fodeu!
- Só se escondam, porra!, falou um dos jovens enquanto molhava as calças.
Cada um correu desgovernadamente em alguma direção diferente em busca de se esconder. Talvez algum não tenha conseguido correr, mas não voltaremos lá pra conferir. É difícil de explicar a fisionomia deles, sabe? Só sabe quem sobreviveu a um ataque, e a verdade é que ninguém nunca sobrevive. De qualquer forma, aquele menino estava disposto a sobreviver. Ele seria o primeiro! Saiu em disparada por uma rua paralela. Quando chegou próximo a um cruzamento, seu coração pulou uma batida quando novos ******** apareceram. Sem muita alternativa, optou por pular uma cerca cor de merda de gato com dor de barriga. Não teve tanta dificuldade pra fazer isso porque amava praticar coisas radicais. Ao pular, caiu num quintal que havia uma varanda aberta e sem portão. Se arrastou silenciosamente até ficar atrás da parte da varanda em que as grades seriam colocadas. Respirou aliviado porque talvez fosse sobreviver. Agora que já estava seguro, olhou pra frente e viu a porta de entrada da casa e uma janela. A janela estava aberta e nela um homem gordo e careca estava virado concentrado olhando pra dentro da casa.
Não entendeu porque o homem não o havia o escutado quando ele entrou na varanda e muito menos quando ele o chamou. Um segundo após ter pedido socorro por três vezes para entrar na casa e se esconder junto ao homem, o rapaz careca se virou pra derrubar as cinzas do cigarro na varanda e viu aquele homem ali no chão. A troca de olhares foi quase capaz de gerar eletricidade. O jovem entendeu que aquele homem nunca havia sido parcimonioso, talvez fosse um ex militar aposentado devido a invalidez. Era realmente isso, sabe? O gordo careca era surdo e estava sem seus aparelhos auditivos. Talvez até com os aparelhos ele não teria ouvido o jovem o chamar. Foi ferido numa operação militar e ficado assim pra sempre.
Sem pensar uma vez sequer, o gordo careca meteu a mão dentro da casa, creio que em uma bancada próximo da janela, e puxou uma arma. O menino entendeu ali que a sua maior ameaça não eram mais os ********, mas sim aquele homem cruel e impiedoso. O homem é lobo do próprio homem. O menino soube antes mesmo que acontecesse: ele iria morrer ali. O gordo careca disparou três vezes e todos os tiros dilaceraram as entranhas daquele pobre coitado. Não sentiu dor, ainda bem. Os sentidos foram se perdendo e os olhos foram fechando. Nunca havia desmaiado, mas achava que a sensação era que nem a de morrer. Fechou os olhos e foi grato por aquilo. Tudo acontece como deve acontecer. É uma puta ironia.
Aquelas balas não tiraram a sua vida, mas o deram uma nova oportunidade pra fazer tudo diferente. O recomeço nascia ali.




terça-feira, 21 de maio de 2019

A maré

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O escuro sempre me trouxe segurança: havia o frio na barriga, mas a felicidade em vencer as criaturas que habitavam aquele espaço desconhecido era gratificante. E eu sempre buscava sentir essa sensação. Crianças são bichos estranhos desde sempre, nunca desacreditei nisso. A questão é que a infância passou e levou com ela esse sentimento de vitória, o que prova ainda mais o quanto ser adulto pode ser um ato suicída. Deixo aqui, em especial, felicitações aos atores que estão em constante contato com situações improváveis e de risco. Pensei que atuar seria fácil, mas não há nada melhor do que encarar tudo como telespectador, e talvez essa seja a grande sacada de tudo: nunca somos somente uma das partes.

Hoje, quanto mais escuro fica, mais me vejo sufocado: pânico, ansiedade e impotência. Todos esses sentimentos causam dor e fazem a alma ansiar por uma dose instantânea de puro ecstasy pra morrer em paz. É uma luz temporária e funcional, só que nunca foi e nunca será a resolução pra todo esse caos. A resposta final eu já sei, mas a teimosia insiste em entrar em ação e não me deixar desacreditar que posso continuar atuando um pouco mais porque assim que eu piscar, o maior holofote do mundo irá me atingir num grau nunca antes visto.

A atuação não pode parar porque o telespectador sempre estará ali dando o seu apoio moral. O suporte que esse equilíbrio gera é o que torna tudo tão gracioso e fatalmente belo, mostrando o reflexo da podridão que habita dentro de nós mesmos. Talvez algum dia eu me vire do avesso e enxergue tudo o que há lá dentro - isso é, se houver -, e me surpreenda. Até que isso ocorra, a gente segue pilotando essa moto sem medidor de gasolina no escuro. 
O escuro me sufoca na mesma intensidade que me fortalece. O medo dele sempre foi real, agora eu sei.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Embate

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Eu nunca esperei que você fosse chegar...
Sequer sonhei que um dia nós iríamos nos encontrar.
Da mesma forma que foi silenciosa, também foi repentina: simplesmente abri os olhos e você estava lá, me encarando com esses olhos negros e desafiadores.
A minha única reação foi não ter reação.
Tenho certeza que se tivesse te encontrado nalguma esquina antes, o teu interesse em mim teria sido diferente. Não posso trabalhar com fatos inexistentes, e aqui estamos nós: abraçados na mais íntima e intrínseca relação.
Não irei relembrar tudo pelo que já me fez passar, isso não seria justo.
O que tenho para falar é que dessa vez você falhou.
Falhou miseravelmente.
Falhou muito!
Eu tenho orgulho da tua queda, seu ser imundo e inóspito. Se pudesse, eu mesmo te mataria brutalmente com as minhas próprias mãos.
Estou no voo nesse momento. Você ousou olhar pelo vidro antes da decolagem. Isso me atingiu tanto, mas tanto, que quase caio na tua lábia e peço pra voltar pra casa e me atracar em ti como se a minha vida dependesse disso. Muito pelo contrário, não é? A minha vida não depende nada disso e muito menos de você. Ela pode acabar antes desse voo aterrissar. Num certo nível, ela acabou. Te venci dessa vez. Vá infernizar um demônio menos preparado que eu.
E por mais que você esteja morta, nas entranhas do meu ser eu sei que iremos nos encontrar vez ou outra. Que esses encontros sejam distantes e menos frequentes.
Ninguém merece viver com você.
Estamos de mãos dadas numa relação de bandido e bandida, só que dessa vez...
Dessa vez você perdeu.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Avante, Júpiter

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O horizonte já anunciava o nascer duma nova manhã. Olhei por entre os galhos daquela árvore solitária e fui atingido por uma epifania que me trouxe paz: aquela que sempre me violava e preenchia ao acordar e te ver dormindo ao meu lado ou quando eu acordava e você abria aquele sorriso que me desestabiliza até hoje. Aquele gradiente pretazul ilustrou esse momento.

O relógio marcava 5:20 da manhã e eu era tomado por uma sensação de infinidade finita. As vidas continuavam dentro das casas ao meu redor: por trás daquelas portas, muros e portões, pessoas despidas de pudor amavam-se naquele exato instante. Em alguma daquelas casas, o cheiro de café sendo preparado tomava conta da cozinha e dos quartos. Um despertador tocava num canto do quarto alertando que era hora de trabalhar. Um cigarro era acesso para acalmar a ansiedade. Os carros eram conduzidos por pessoas recém-saídas de seus infinitos particulares. Eu apenas confabulava em silêncio com o universo. Uma a uma, as luzes dos postes eram desligadas.

O tempo estava muito ameno pruma cidade em que o calor reinava. Ao entrar em contato com a minha epiderme, o vento leve e gélido me fazia estremecer. Não soube como enxerguei tudo aquilo antes, mas meus olhos estavam fechados. Fui despertando desse transe quando o sol começou a lançar os seus primeiros raios ultravioletas em mim. Abri os olhos e estava sorrindo.

Saquei o telefone e tirei algumas fotos. Eternizei mais uma das infinitas memórias que me remetem a você. Comecei a andar na direção contrária da árvore. Avistei Júpiter em meu caminho. Segui a trilha, e por mais que a vontade fosse olhar novamente para aquela árvore e me sentir em casa, não pude fazê-lo.

Foi um dia excelente.