sábado, 9 de julho de 2016

O tique-taque mundo

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O celular berrava desde 10 pras 05:00 da manhã, porém o despertar somente aconteceu uma hora mais tarde. A cabeça já não latejava mais, porém era possível sentir a estática mental. Os dois litros de vinho barato da noite anterior ainda percorriam as suas entranhas. Olhou na tela do celular: estava atrasado. Tenho que levantar hoje?

O banho rápido e gelado o trouxe um pouco de volta a realidade. Conseguiu uma carona até metade do destino semanal. A estática mental continuava e, juntamente com um grito de socorro apertando a garganta, só restava seguir imerso em pensamentos autodestrutivos.

Introspectivo em seu acento no ônibus, continuou o velho e matinal ritual de leitura. Lia sempre que podia, principalmente dentro dos ônibus pra matar os pensamentos cinzentos. Decorrido algum tempo, deu uma pausa: tirou os óculos, esfregou os olhos profundamente e olhou o fluxo pela janela.

As coisas lá fora passavam num borrão de cores vivas e brilhantes devido ao forte sol. Era engraçado pensar que a vida estava passando de forma igual para todos, mesmo para aqueles que não estavam em movimento, mas que faziam parte dos vultos vistos por dentro do ônibus. E, indo além, cada borrão estava travando lutas internas contra demônios e vampiros reais.


Os demônios estão entre nós, assim como os vampiros que não possuem consciência de si próprios e nem de seus reflexos  pois nada lhe causam. Se tudo é uma questão de perspectiva, considerava o pensamento válido.

De súbito, um pensamento o acometeu: estava muito atrasado. Rapidamente, olhou para o relógio no braço esquerdo e teve certeza que o seu coração havia pulado uma batida: o relógio estava parado. O que havia de intrigante nisso? Estava avançado num espaço-tempo paralisado havia horas e não percebeu. Às vezes o tempo passa e a gente nem vê... Ou seria o inverso?

Somos telespectadores. As TVs estão desligadas. Apontam espelhos invertidos para nós. Vemos tudo que não queremos. Sufocamos no nosso próprio apelo.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Aconteceu

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Escondido nas entranhas do receio,
Desfocado e sem ânimo, ele seguia a sua vida
Azul e negra.
Encarceramento mental.

Nas águas turvas e barrentas da solidão,
Ela colecionava fragmentos cortantes dentro da alma.
Olhou além do horizonte, e
Sorriu.

O encontro não foi combinado,
Talvez até tenha sido o desencontro dos desencontrados.
Encontraram-se um noutro.

Sorrisos sinceros cheios
De abraços infinitos com muito
Amor.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Catatonia Binária

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No descompasso da maré,
Surfando na incerteza invisível e crescente,
Foi possível avistar o palco, lá longe, num horizonte distante.
Outra onda se formava.

(catatonia)

Os olhos foram fechados, e
Logo o encarceramento assumiu o controle.
A introspecção veio, juntamente com a lucidez infiel.
Catatonia.

(binária)

Enxergou o 0 (o sentiu);
Sentiu o 1 (o enxergou).
Catatonia binária.


sábado, 28 de março de 2015

A Chuva e as Lágrimas

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                                     Chove lá fora.
                                                        Aqui dentro, solidão
                                     Lágrimas caem.


sábado, 28 de fevereiro de 2015

Caminhos e Maneiras

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Caminhando deliberadamente e sem rumo, o Viajante Temporal parecia querer esquivar-se de toda e qualquer forma de vida. Na avenida congestionada duma sexta-feira atraente, os carros buzinando e com motoristas xingando, as pessoas conversando e rindo em bando – outras até com fones de ouvido e imersas em seus smartphones – e as propagandas brilhantes nas vitrines com propostas atraentes, porém com produtos ultrapassados, ficaram totalmente em segundo plano enquanto o nosso personagem principal estava tentando, entre tantas outras alternativas, acabar com a sua
(vida)
dor e libertar-se de tudo. Os sons das buzinas eram convertidos em estática mental quando captadas por ele, enquanto as pessoas viravam apenas borrões opacos e sem foco num plano de fundo com as luzes brilhantes num caleidoscópio psicodélico e violento.
            Um maluco descuidado e de patins trombou com ele na calçada quando estava tentando se recuperar da manobra não muito bem sucedida, caindo logo em seguida. Com cordões de prata enormes em forma de cifrão e os olhos pintados dum preto intenso, o jovem loiro e gótico tateou no chão em busca do seu celular que começara a tocar. O baque acabou despertando o Viajante, que olhou com imparcialidade praquele jovem descuidado e continuou andando, mas agora com maior velocidade. Entretanto, o toque do celular dele era uma música bastante marcante em sua vida e o fez recordar, com bastante relutância, o que estava buscando.

            Agora, o seu carro estava estacionado a menos dum minuto dali, mas aqueles pensamentos tão ínfimos o tomaram por quase uma eternidade. Sorriu e entrou no carro. Poderia mesmo ter sido uma eternidade, pensou ele. Ligou o rádio, e adivinhem só?! A mesma música. Contemplou a plenitude de olhos fechados e descobriu que sempre a encontraria dentro de si próprio.