sábado, 28 de fevereiro de 2015

Caminhos e Maneiras

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Caminhando deliberadamente e sem rumo, o Viajante Temporal parecia querer esquivar-se de toda e qualquer forma de vida. Na avenida congestionada duma sexta-feira atraente, os carros buzinando e com motoristas xingando, as pessoas conversando e rindo em bando – outras até com fones de ouvido e imersas em seus smartphones – e as propagandas brilhantes nas vitrines com propostas atraentes, porém com produtos ultrapassados, ficaram totalmente em segundo plano enquanto o nosso personagem principal estava tentando, entre tantas outras alternativas, acabar com a sua
(vida)
dor e libertar-se de tudo. Os sons das buzinas eram convertidos em estática mental quando captadas por ele, enquanto as pessoas viravam apenas borrões opacos e sem foco num plano de fundo com as luzes brilhantes num caleidoscópio psicodélico e violento.
            Um maluco descuidado e de patins trombou com ele na calçada quando estava tentando se recuperar da manobra não muito bem sucedida, caindo logo em seguida. Com cordões de prata enormes em forma de cifrão e os olhos pintados dum preto intenso, o jovem loiro e gótico tateou no chão em busca do seu celular que começara a tocar. O baque acabou despertando o Viajante, que olhou com imparcialidade praquele jovem descuidado e continuou andando, mas agora com maior velocidade. Entretanto, o toque do celular dele era uma música bastante marcante em sua vida e o fez recordar, com bastante relutância, o que estava buscando.

            Agora, o seu carro estava estacionado a menos dum minuto dali, mas aqueles pensamentos tão ínfimos o tomaram por quase uma eternidade. Sorriu e entrou no carro. Poderia mesmo ter sido uma eternidade, pensou ele. Ligou o rádio, e adivinhem só?! A mesma música. Contemplou a plenitude de olhos fechados e descobriu que sempre a encontraria dentro de si próprio. 

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Cenários

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Cena I - Fuga

A amargura era o seu prato preferido.
No clarão da chuva torrencial da madrugada, o vulto ectoplásmico fundiu-se a ventania desenfreada e como num breve insight, saiu voando sem rumo. Cansado da perseguição, O Menino Que Chorava Por Um Olho Só acabou caindo no seu próprio abismo de solidão e dor. Enquanto virava-se contra o negro horizonte que descarregava a sua fúria incessante naquele infeliz coração enjaulado, O Menino cuspia uma mistura de sangue e barro juntamente com o gosto intenso e amargo de toda a bile que poderia existir no mundo. Aquela luta estava encerrada e, mais do que ninguém, eles sabiam disso. O Menino chorou o seu egoísmo pelo único olho que tinha.

II - Paralisia

Pintava quadros e ria deles.
Olhando para a aurora sobre o ombro nu, a sua visão periférica vislumbrou fantasmas mortos há muito tempo. E lá longe, todos eles começaram a cantar uma melodia clássica em uníssono. A Menina Que Não Tomava Parte conhecia e amava cada som que era produzido, mas como numa amnésia instantânea ou como consequência duma sequência de viagens temporais, não recordava-se de nada. Quando deu-se conta do transe, daquela sensação de encarceramento físico e mental em que encontrava-se, juntou tudo que tinha dentro de si para fugir daquele lugar e nunca mais voltar, mas foi tudo em vão. Os quadros riram dela.

III - Divisão

Seus movimentos eram graciosamente calculados.
Nem sempre, mas boa parte deles, poderíamos assim dizer. Compartilhar aquele corpo, o corpo dele, era uma guerra-sem-fim. O Menino Dividido E Seu Irmão Gêmeo Absorvido eram famosos naquela região. Um dia um dizia que era "isso", noutro dia o outro diria que era "aquilo" e, como era natural acontecer, viviam nessa eterna contradição. Por fora, as pessoas diziam que era a Sociedade. 

domingo, 19 de janeiro de 2014

Um breve relato (sem aspas) de alguém ainda não identificado

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Lá estava eu, deitado na praia, enquanto as ondas quebravam no vento e jogavam respingos no meu corpo. Quando elas batiam no meu rosto e se juntavam com as minhas lágrimas, davam uma sensação que aquecia o coração. No horizonte, tão distante, tão amplo, belas figuras eram formadas com as nuvens-de-algodão-doce-nublado. Ainda lembro do elefante sem orelha e do corpo humano sem cabeça. Quando quis me levantar, lembrei o motivo de ter sentindo uma paz enquanto estava isolado ali, só com os pássaros planando lá longe e as nuvens brincando de formar coisas sem sentido. Senti uma breve vertigem e foi exatamente nesse momento em que a ferida recomeçou a doer. O meu paradigma final.

Essa ferida, essa que gangrenou o núcleo da minha alma, me consome como se tivesse sido amarrada à minha alma num tempo que já não sei se existiu. De tão atemporal que é, ainda luto em busca de respostas, mas sem muito sucesso. E no final, sempre me entrego aos mesmo caprichos, aos mesmos vícios duma rotina martirizante. Já não me importo tanto com despedidas e o que me assusta, é não me assustar com isso. Chegou um momento em que de tanto reprimir, mesmo que inconscientemente, as palavras ficaram gravadas nas cordas vocais. Elas nunca foram pronunciadas e, pelo andar do barco, nunca serão.

Finalizo aqui, num barzinho no centro da cidade, tomando algo que não sei o nome pra curar, mesmo que por um breve momento, essa ferida que me atormenta. Nem mais o meu nome eu sei. Amo essas brechas temporais, me esconder lá enquanto o circo pega fogo e a ferida parece não existir. 

Me sabotei.

domingo, 18 de agosto de 2013

Relato duma ferida pulsante

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Espiei por trás da parede por um tempo que não soube contabilizar, mas duma coisa eu não tive dúvidas: ela ainda estava lá, indo embora. Forcei a visão até que uma vertigem me atacou e por um momento, ela já não estava mais lá. Quando me recuperei, descobri que ela estava dentro de mim, na minha pele, pulsando como se eu fosse o caos. E eu gritei! Gritei como se o mundo dependesse do meu esforço, só que de nada adiantou. Lembro que depois de muito tempo, ela continuava em mim, só que dessa vez eu a suportava. A dor, contudo, virou uma ferida de tanto doer. Em todos os lugares que eu estava, ela também estava lá, desde o trecho duma música qualquer até uma nuvem no céu nublado. Os bons momentos quando já não podem mais ser compartilhados com alguém, eles viram apenas instrumentos de tortura mental chamado lembranças. As lembranças, por sua vez, te trazem um atordoamento cheio de perguntas e vontades que não podem mais tornarem-se realidade. Talvez eu seja um caos mesmo. Não poderei mais acordar antes dela e fica lá, olhando ela dormir profundamente, como um anjo. Não terei mais as DRs mais engraçadas da minha vida, que sempre acabavam com um “te sento a mão na cara, menino”. Ah... Algumas coisas por estarem subentendidas, não precisam ser ditas ou escritas. Ao menos, era pra ser assim. E lá, num lugar remoto rodeado por outras feridas não menos pulsantes quanto a minha, eu continuava. A ferida morreu.

- Encare como se eu não fosse voltar, sem otimismo.

- Eu sinto que agora você precisa de mim o tanto quanto eu preciso de ti.

- O que eu te pedi ?

- Eu sei...

segunda-feira, 8 de julho de 2013

A Torre Negra

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Aquele menino, o menino que foi desafiado por um feiticeiro,
Fruto do ventre duma dama vendida e dum Pistoleiro morto,
Havia vingado.
E o Oeste nunca viu.

Corria por entre os arbustos da floresta mais densa que conheceu e
Entre uma respiração e outra, vozes o entrecortavam por dentro e por fora.
Estava num paradoxo e a lucidez estava se aposentando.
Ficou estático quando avistou a porta.

A encarou por um tempo indeterminado e soube que era ela quem o encarava,
Apoderando-se daquilo que pareciam ser emoções há muito tempo mortas.
O Pistoleiro ajoelhou-se.

O horizonte, escuro como como véu enlutado, chorou sobre ele,
Lavando a procrastinação e o medo da Torre.
Das Torres.

Afinal, havia outros mundos além daquele.
Também chorou.
Roland atravessou a porta.